Basílica de Nossa Senhora do Pilar – Ouro Preto, Minas Gerais

Essa igreja, que possui um dos interiores mais admiráveis do Brasil, foi erigida no local de uma antiga capela dedicada a Nossa Senhora do Pilar, que fora construída entre 1700 e 1703, da qual não resta nenhum vestígio.

No ano de 1724 a igreja foi elevada à condição de ‘colativa’, com um vigário permanente.

Ao contrário do que normalmente se pensa, quem tomava a iniciativa e financiava a construção desses templos não era a cúpula da Igreja Católica, mas sim o povo. No caso da matriz do Pilar, não seria diferente: todo o ouro que nela seria depositado foi doado espontaneamente pelos fiéis.

Assim, no auge do período do ouro, quando a cidade de Vila Rica crescia cada vez mais, diversas confrarias se reuniram para construir uma segunda matriz (a primeira era a da Conceição de Antônio Dias). Dentre essas confrarias, a que mais se destacou foi a Irmandade do Santíssimo Sacramento, que, como de costume, era a principal irmandade envolvida na construção de matrizes mineiras. Além disso, um dos principais benfeitores da nova matriz do Pilar foi o próprio governador da província.

No ano de 1731 foi realizado o compromisso de construção, firmado por João Fernandes de Oliveira, com projeto atribuído ao sargento-mor e engenheiro Pedro Gomes Chaves.

Como já havia uma capela no local, a construção começou pelo corpo da igreja, feito em taipa e adobe. A igreja primitiva foi mantida intacta, servindo como capela mor, sendo demolida apenas em 1731.

No ano de 1733 grande parte da construção já estava pronta, e os irmãos negros da irmandade do Rosário organizaram uma festa apoteótica para a inauguração, que ficou conhecida como o “Triunfo Eucarístico de 1733”. Nessa solenidade, o Santíssimo Sacramento seria transladado com toda a pompa da igreja do Rosário para a nova matriz.

No relato do português Simão Ferreira Machado, transcrito por Paulo Kruger Mourão, consta que “as festas preliminares tiveram início vários dias antes’…”no dia da Ascensão foi benta a nova igreja”…”o Senado da Câmara ordenou aos moradores que pusessem luminárias durante as seis noites antes da festa, estendendo-as até o Padre Faria [bairro]“….”No dia 25 de maio, a vila amanheceu enfeitada, com sedas e damascos nas janelas”…”Antes de sair da procissão, o ostensório do Santíssimo foi colocado em um braço de uma imagem de Nossa Senhora, em substituição ao Menino”….”Houve então uma missa na Igreja do Rosário, e a procissão se iniciou, precedida por uma ‘dança de turcos e cristãos’, carros com música instrumental e vocal, dança de romeiros, cavaleiros cujos animais levavam arreios ‘de luxo oriental, com profusão de prata, ouro, diamantes, rendas, sedas finas’…”seguiam também oito negros vestidos por galante estilo, tocando charamelas que alternavam com um clarim”…”no cortejo, também havia figuras representando os planetas”….”a Irmandade do Santíssimo era precedida pelo seu ‘guião’, que era um estandarte carmesim franjado de ouro, levado por um irmão ricamente vestido”…”Em seguida as outras irmandades com seus andores: São José (pardos), Rosário dos Pretos, com várias e custosas peças de ouro e diamantes, bem como flores de diversas e alternadas cores’; seguiam também as outras irmandades: de Santo Antonio, Rosário dos Brancos, Conceição”…Depois de iniciada a procissão, o Santíssimo seguiu debaixo de um pálio, em mãos do reverendo da matriz, vestido de rica alva, estola, capa de asperges e véu de ombros, tudo de muito preço, entre dois sacerdotes também revestidos de ricas alvas e dalmáticas de tela branca. O pálio era de carmesim com ramos e franjas de ouro, de seis varas de prata que levavam seis irmãos”…”Chegado à matriz do Pilar, houve missa e salva de tiros pela companhia de Dragões”…”depois, houve três dias de cavalhadas e até ‘corrida de touros'”.

O cronista relata que “foi uma ação tão singular que nem a antiguidade viu a primeira, nem a posteridade verá segunda, para glória dessa nobilíssima vila, fazendo assim mais conhecida e dilatada na terra do Soberano Sacramentado a devida veneração e eterna glória”.

Seguindo o mesmo espírito desse grande evento, a matriz continuou a ser embelezada pelos anos seguintes.

Em 1736, Antonio Francisco Pombal, irmão de Manoel Francisco Lisboa, assumiu a decoração interior. Nessa época foram finalizados os altares laterais, cada um pertencente e financiado por uma irmandade.

Altar da irmandade de Santo Antônio, um dos dois mais antigos, e que provavelmente pertenceu à igreja primitiva.

Acima e abaixo, sacrários de alguns altares laterais.

Púlpitos, destinados à leitura e pregação.

Os lustres são sustentados por esculturas de fênix, aves lendárias que ressurgiam das cinzas. Seu uso nas igrejas é em alusão à ressurreição de Cristo.

O forro da nave, em caixotões, é composto por quinze painéis representando personagens e temas do Antigo Testamento, com pinturas atribuídas aos pintores João de Carvalhais e Bernardo Pires.

Medalhão do arco cruzeiro, com o símbolo da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora do Pilar, principal empreendedora da construção dessa igreja.

Em 1741 projetou-se uma nova capela mor, e em 1746 a irmandade do Santíssimo realizou concorrência para realização de sua talha. Quem arrematou a obra foi Francisco Xavier de Brito, um português que já trabalhara na capela da Ordem Terceira de São Francisco, no Rio de Janeiro. Ele apresentou um risco com modificações do anterior e a obra levou mais de dez anos para ficar pronta (quando o artista faleceu, em 1751, o retábulo ainda não estava finalizado).

Em 1755 Manoel Francisco Lisboa (pai do Aleijadinho) foi encarregado de verificar a durabilidade do teto da capela mor, de forma a saber se estava ‘em posição de durar anos’. Ele atestou que havia uma série de problemas, sobretudo risco de infiltração, que impediriam inclusive de dourar a capela.

Apesar disso, o teto durou até 1770, quando então Elias Xavier da Silva realizou nova cobertura, dessa vez em forma de ogiva, com um quadro da Santa Ceia em seu centro.

Em 1774 a capela mor foi finalmente dourada.

Santíssima Trindade, no alto do retábulo principal

Paramentos antigos, atualmente em exposição no subsolo da igreja.

Em fins do século XVIII foi necessário reconstruir uma torre, e no ano 1825, parte das antigas paredes de adobe foram reedificadas em pedra e cal (uma parte das paredes originais ainda pode ser vista atrás da capela mor).

Somente em 1848 foi finalizada a parte externa da igreja, com uma remodelação da fachada e conclusão da segunda torre. Segundo German Bazin, essa remodelação provavelmente inspirou-se nas fachadas da igreja de São Francisco de Assis (devido à presença de colunas e ligeiro avanço em relação às torres), e também nas fachadas das igrejas do Carmo e Rosário.

No ano de 2012, o papa Bento XVI elevou essa igreja ao status de ‘basílica menor’.

Segundo Paulo Kruger, essa matriz é “uma expressão da realeza“, que “se manifestou como nunca nas pompas e esplendores do Triunfo Eucarístico” – evento que expressou a grandeza divina, que era o verdadeiro centro das homenagens daqueles que fizeram esses templos.

 

REFERÊNCIAS:

– BAZIN, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– MOURÃO, Paulo Kruger Correa, As igrejas setecentistas de Minas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1986

– TIRAPELLI, Percival, Igrejas Barrocas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 2008

IPHAN

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